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Açúcar - 04/07/23

A HISTÓRIA SE REPETE E OS ERROS TAMBÉM.

A HISTÓRIA SE REPETE E OS ERROS TAMBÉM.

O mercado futuro de açúcar em NY desmoronou na semana encerrada nesta sexta-feira. O vencimento julho/23 que também expirou no mesmo dia e resultou numa entrega física de açúcar de pouco mais de 400,000 toneladas, ruiu 150 pontos no acumulado da semana, equivalentes a 33.29 dólares por tonelada.

No pregão de sexta-feira, no entanto, NY recuperou uma parte da perda observada nos últimos dias e acabou encerrando em território positivo, com o outubro/23 fechando a 22.82 centavos de dólar por libra-peso. Entendemos que esse movimento de recuperação pode ter vindo parcialmente da compra e fixação de preços dos consumidores industriais atrasados no apreçamento de seus insumos.

A movimentação dos spreads desde o colapso iniciado em 20 de junho e seguido por oito sessões negativas, quando o julho negociava a 18 pontos de prêmio sobre o outubro até os últimos dias pode ter suscitado a liquidação das estratégias com os players embolsando os lucros e rolando eventual entrega no julho para um posicionamento estratégico para outubro, caso algo surpreenda do lado da Índia ou mesmo nessas bandas de cá.

Falando de Índia, o governo daquele país, assim que os preços do açúcar em NY colapsaram se apressou em aventar a possibilidade de a Índia não exportar açúcar na próxima safra (que inicia em outubro). Um tiro no pé. Como ninguém acreditou nesse delírio, os preços do açúcar em NY caíram ainda mais depois do anúncio. Atitudes como essa ferem a credibilidade das instituições. Lembrando que na safra 21/22 a Índia jurava de pés juntos que suas exportações de açúcar não passariam 7 milhões de toneladas e, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) exportou 11.9 milhões de toneladas de açúcar.

Alertamos aqui que as tradings seriam muito mais seletivas nos contratos para a safra 2024/25. O suor frio passado por elas com chamadas de margens gigantescas e a recusa combinada com retardamento por parte dos consumidores industriais em fixarem suas compras nos níveis altos que o mercado negociava, o que amainaria as chamadas de margens, tem provocado mudanças nos contratos comerciais para a próxima safra, um pouco mais amargos para as usinas. Redução da janela de fixação e cobrança de juros sobre adiantamento do açúcar estão entre os novos ônus para as usinas. Se colar, beleza. Senão, volta-se ao que era antes.

A Petrobras reduziu o preço da gasolina nas refinarias a partir de 1º de julho. Não havia defasagem entre o preço internacional e o praticado pela empresa, mas o contrário: os preços estavam 12% em média abaixo do mercado internacional. Mas, sob nova direção, a estatal optou pela redução provavelmente antecipando o aumento do preço da gasolina com a volta dos impostos. Uma forma de neutralizar a volatilidade dos preços. As ações da empresa despencaram 5%. Para o hidratado, isso representa um duro golpe. É o governo do PT sempre muito simpático ao setor.

Temos discutido aqui nesse espaço ad nauseam a necessidade imperiosa de se ter uma política de risco dentro da empresa desenhada e executada seguindo indicadores que permitam a tomada de decisão desapaixonadamente. Não existe um único critério a seguir, mas um conjunto de indicadores que objetivem agregar valor ao acionista. Política de risco (ou de hedge) acaba exercitando a disciplina e diminuindo o impacto de se embarcar em narrativas falaciosas comuns quando o mercado entra no modo pânico.

Por exemplo, algumas empresas estabelecem um valor mínimo no fluxo de caixa ditado por um orçamento criterioso feito na ponta do lápis e preferem operar uma fence, estratégia que constitui a compra de uma put (opção de venda) para garantir o valor mínimo do orçamento, combinada com a venda de uma call (opção de compra) acima do mercado, para financiar a estrutura. Abre-se mão de preços melhores se o mercado explodir em troca da segurança de se ter aquilo estabelecido no orçamento.

Outras empresas utilizam o EBIT (lucro operacional) e aceleram suas fixações de preço na razão direta de sua evolução deste indicador. Um critério pelo qual tenho especial predileção é o de analisar os valores em reais por tonelada ao longo do tempo ajustados pela inflação e compará-los com o momento atual. Ainda recentemente (no final de abril) vimos NY negociar acima dos R$ 3,100 por tonelada FOB equivalente, a preços de hoje, e alertamos que esse valor, no último quarto de século, ocorrera apenas 1.5% de todos os eventos. Como não fixar preços nesses níveis?

Obviamente que podemos errar na estratégia, mas é preferível errar com critério do que acertar sem ele, pois errando podemos refazer a estratégia e buscar as falhas no critério adotado, ao passo que quando acertamos sem critério só nós restar atribuir o acerto à sorte ou aos deuses.

No último dia útil de maio o fechamento do açúcar em NY equivalia (ajustado para hoje) R$ 2,924 por tonelada. Nesta semana, contrato futuro de julho/23, chegou a negociar o equivalente a R$ 2,467 por tonelada. Em um mês R$ 457 por tonelada escapuliram pela janela.

O que ainda temos pela frente? Na semana passada, afirmamos aqui que iríamos ver 22 centavos de dólar por libra-peso antes do Natal. Erramos feio. Os 22 centavos vieram essa semana. Uma queda muito mais violenta do que qualquer um poderia imaginar, ainda que os fundamentos sustentassem (e continuam sustentando). Acreditamos que um suporte razoável na curva em reais por tonelada de longo prazo ajustada pela inflação é ao redor de R$ 2,350 equivalente FOB. Pelo fechamento do câmbio na sexta-feira de R$ 4,7865 isso daria hoje algo ao redor de 21.50 centavos de dólar por libra-peso.

Mas, isso é apenas um indicador. Por outro lado, temos que analisar que a safra brasileira está indo muito bem, o rendimento da cana é melhor do que o ano passado, algumas empresas estão investindo para produzirem mais açúcar no ano que vem, o mercado de energia continua desapontando, enquanto o etanol vê sua margem minguando. É muita coisa negativa para sustentar os preços. No entanto, os altistas se animaram com o repique do gato morto, terminologia criada há uns 40 anos pelo mercado acionário para definir um pequeno movimento ascendente dos preços depois que o mercado desaba. Vamos ver se o açúcar vai miar ou não.

Arnaldo Luiz Corrêa

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