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Gestão - 23/10/23

Gestão de Riscos de Resultados

Gestão de Riscos de Resultados

Luiz Cláudio Caffagni*

O contexto ideal para o produtor seria sempre conseguir vender a produção pelo maior preço, comprar insumos pelo menor preço e buscar a maior produtividade. Mas esperar pelo momento de melhor preço não se mostra como uma estratégia de sucesso, dada a imprevisibilidade do mercado. Nesse sentido, este artigo discute aspectos relacionados à estratégia de gestão de risco de resultados, utilizando como exemplo a cultura de milho.

A gestão de riscos de resultados requer estratégia robusta!

Não basta conhecer derivativos, finanças, técnicas agronômicas e outros conteúdos. É preciso construir uma estratégia a partir de um propósito!

O propósito mais primário e racional do empresário é a perpetuação da atividade e o crescimento da renda. Com essa motivação o produtor rural deve perseguir o conceito de equilíbrio entre lucro x risco.

Porém, a complexidade da atividade agropecuária torna tudo mais difícil. Veja no box algumas características que, independentemente do tamanho do produtor, tornam a atividade desafiadora.

Para o produtor, o ideal seria vender a produção pelo maior preço, comprar insumos pelo menor preço e buscar a maior produtividade.

Mas a espera pelo melhor preço muitas vezes não é uma estratégia de sucesso, dada a imprevisibilidade do mercado. Além disso, existe um limite de produtividade, além do qual ao aumentar a quantidade de insumos, a produtividade cresce menos que proporcionalmente.

No momento da decisão do que vai plantar ou criar, o produtor defronta-se com diversos riscos que precisam se equilibrar com as receitas para que o resultado final seja positivo. 

Algumas características que tornam a atividade agropecuária desafiante:- Estrutura de mercado: a estrutura de mercado do setor de produção de commodities agropecuárias se equipara a ”concorrência perfeita”. Por ser um setor desconcentrado (na maioria dos produtos) os fornecedores de insumos e compradores de mercadorias são os que fpormam os respectivos preços. Ou seja, o produtor geralmente é “tomador de preço” e não determina os preços de venda e de compra.- Dependência climática: os efeitos da instabilidade climática são classificados como riscos catastróficos pelo setor segurador. Essa característica é explicada pela incerteza de ocorrência, de abrangência e de impacto na produção.- Volatilidade de preços de commodities: a incerteza na oferta e demanda regional e mundial de mercadorias gera volatilidade nos preços, o que pode não acontecer com preços de outros bens e produtos.- Insumos importados: ainda que preços de agroquímicos e fertilizantes não sejam muito voláteis, a dependência internacional agrega a volatilidade cambial na formação dos preços. O que em última análise é repassada ao produtor.- Taxas de juros: por ser um setor dependente de crédito, quando a taxa de juros sobe o setor perde. Essa dependência pode ser explicada pela sazonalidade entre despesas e receitas, pela lenta maturação dos empreendimentos, pela intensificação de utilização de máquinas e equipamentos etc.

O CENÁRIO BASE

Imagine um produtor de milho de 2ª safra que precise comprar sementes, agroquímicos, agrobiológicos, fertilizantes e nutrientes para iniciar o plantio em fevereiro e colher em junho do ano seguinte. Nesse momento é importante decidir qual a tecnologia que se pretende implantar.

A definição da tecnologia exige o cálculo do custo de produção (instrumento essencial de gestão) e o cruzamento com os preços futuros, para se simular os resultados esperados e traçar o cenário base.

A tabela 1 mostra os resultados de 1 hectare de milho com adoção de duas tecnologias acrescidos dos custos do financiamento, do hedge e do seguro climático. Note que a margem está apertada e qualquer “ponta solta“ pode levar a planilha para o vermelho.

Veja que o exemplo da planilha ilustra que a produção com o uso de tecnologia menor traz um resultado melhor do que a com maior tecnologia, ou seja, nem sempre a maior produtividade gera o melhor resultado ou o maior lucro.

Tabela 1 – Cálculos de resultados para cultura de milho no Médio Norte do Mato Grosso

Fonte: IMEA, julho/2023 (*) e dados de mercado (**); elaborada pelo autor.

Com o cenário base na mão, determinado neste exemplo pela tabela 1, iniciam-se as alternativas para maximização do resultado. Tenha em mente que a planilha de cálculo de resultados é um instrumento “vivo” que vai se alterando conforme as decisões vão sendo tomadas. A “arte” é não piorar o cenário base!

O momento de aquisição de insumos pode determinar custo mais alto ou mais baixo, e mais uma vez a planilha de simulação de resultados é um dos únicos instrumentos para essa avaliação.

A compra dos insumos pode ser realizada nas seguintes modalidades: barter, compra a vista ou compra a prazo; com recursos próprios ou oriundos do mercado bancário ou de capitais. Para auxiliar na decisão, a planilha deve permitir a simulação dos resultados em relação ao mix utilizado de aquisição de insumos.

No momento de fechamento dos negócios de insumos, já se deve avaliar a necessidade de fixações de preço de milho para o futuro. Nesse momento as exposições de risco de preço se intensificam, pois os custos são fixados e os preços de venda não podem ficar “descasados”.

No caso de uma operação de barter com liquidação em milho, não existe o risco de preço do milho cair, ao passo que se a operação for liquidada financeiramente por um preço fixo, se o preço do milho cair será necessário a venda de um volume maior para pagamento do saldo devedor.

Desse modo, ao realizar uma operação de barter com liquidação em produto, o cenário base se altera e o custo do insumo e a quantidade de milho comprometida devem ser apartadas, uma vez que a exposição daquele insumo já está travada.

Se o produtor se preocupar em “casar” as exposições de sementes, defensivos e fertilizantes será o suficiente para gerir o risco de em torno de 60% do custo de produção.

ALTERNATIVAS DE GESTÃO DE RISCO DE PREÇO

A primeira prática que se deve adotar para a gestão de risco de preço é incorporar a despesa do hedge (ou do seguro de preço) ao custo de produção, assim como já acontece com a despesa do prêmio do seguro climático (como na tabela 1).

Outra decisão que se deve tomar é sobre a estratégia de fixação de preços. Primeiramente deve-se comparar ou arbitrar (no jargão de mercado) qual é a forma mais eficiente de fixação do preço. Além do custo e da facilidade, deve-se considerar qual será a bolsa de referência, se são gerados relatórios para acompanhamento da posição, facilidade de acesso ao profissional responsável pela execução do hedge etc.

As alternativas de fixação de preço podem se dividir em: travar o preço junto a trading, cooperativa de produção ou cerealista; realizar a fixação em instituição financeira (banco, fundo de investimento ou cooperativa de crédito); ou realizar operação de hedge diretamente na bolsa.

Um dos instrumentos de fixação muito utilizados é a fixação do preço junto a trading, cooperativa de produção ou cerealista, operação conhecida como contrato a termo. Porém, caso o preço no momento da entrega do produto estiver mais alto, o produtor terá que liquidar pelo preço anteriormente combinado. Por outro lado, se o preço estiver mais baixo o comprador terá que pagar o preço acordado inicialmente.

O melhor instrumento derivativo para agentes da economia real é o mercado de opções, quando o hedger compra (antecipadamente) o direito de se posicionar num determinado nível de preço em uma data futura. Se o preço for melhor ele ganha a diferença.

Diante disso, o produtor deve procurar primeiramente comprar uma PUT (opção de venda) no balcão (junto a tradings, cooperativas de crédito, bancos etc.) ou em bolsa (através de um corretor credenciado). Nessa operação, caso o preço caia ele fica protegido, mas se o mercado subir ele ganha com a alta (perdendo somente o prêmio).

Caso essa operação seja cara, o produtor pode fixar o preço através de duas operações: vende termo de balcão e compra CALL (opção de compra) por um nível de preço mais alto que o mercado está indicando para a data futura. Nessa operação ele se protege da queda do preço (pelo contrato a termo) e se o preço subir (acima do nível de preço escolhido) exerce a opção e ganha a diferença. O efeito é quase o mesmo em relação ao exemplo anterior.

Por fim, existem outras operações, além das anteriores, que podem ser levadas em consideração na estratégia empresarial. Mas não esqueça que o travamento dos preços sem observar os cenários de resultados pode não produzir efeito desejado, tal como travar um prejuízo.

Obs.: Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Agroanalysis edição de outubro/2023.* Consultor em derivativos e crédito no agronegócio. Sócio da Archer Education, conselheiro de administração e professor de pós-graduação lato sensu da FGV – luiz@archereducation.com.br

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